10 Novembro 2008

Adoção, um ato de nobreza




Dedico o espaço do post de hoje à blogagem coletiva ADOÇÃO, UM ATO DE NOBREZA. A discussão sobre o assunto é bem-vinda afinal, a problemática assinala um percurso inacabado onde há muitas pedras a serem tiradas do caminho para que delas se construa um mundo melhor.

Ele trouxe-nos luz quando chegou. Sua presença pequenina e toda embrulhada em uma trouxinha de panos nos enchia de sorrisos. Assim que meus pais chegaram com aquela trouxinha de onde só se podia avistar fiapinhos de cabelos encaracolados, eu soube que o evento que ali se apresentava seria um marco em nossas vidas. Um marco como as pedras utilizadas pelos patriarcas bíblicos para assinalar os milagres de Deus. A adoção quando afetiva é isso: milagres acontecendo a cada dia quando uma criança, antes abandonada a sua própria sorte, pode crescer bem assistida e amada.

O afeto que faço menção não é daqueles de beijinhos e de abraços. Afeto pressupõe mais. Sua acepção original nos oferece uma graduação maior do sentido com que a utilizamos: significa “ir atrás”, isto é, um movimento para fora de si mesmo. Transportado para o contexto da adoção, o afeto não coexiste com decisões de escopo egoísta. È uma decisão que se faz de cor, de coração.

Aqui em casa, nosso universo se abriu para que meu irmão entrasse. Mas, não pensem que não houve troca. Nesse processo, há um superávit de coevolução. Ao abrir nosso mundo para que ele entrasse, ele abriu o seu para que também nós entrássemos. Não fomos somente nós que o escolhemos. Ele nos escolheu. E até hoje (desde que já se passaram 18 anos) assim é. Sempre nos pusemos contra a adoção plena cunhada no espírito mercadológico de se ter em casa uma criança “pura”, sem marcas genéticas e sem história. Por isso, nunca desprezamos o direito que ele tem de conviver com sua família natural.

Acredito que uma das problemáticas do atual sistema de adoção diz respeito a esse modelo “ideal” de crianças adotáveis: branca, saudável, bebê, menina e “perfeita”. Será que tal prática assinala-se como preponderante para explicar a desproporção entre o quantitativo de crianças e adolescentes a espera de adoção e o número de pessoas com a intenção de adotar?

Bem, essa questão identitária precisa ser mencionada e mais bem avaliada, pois ao se estudar os principais atores desse processo é possível alcançar soluções para esse problema de ordem cultural levada a efeito pelas políticas de adoção pautadas em critérios de exclusão. Não é a toa que indicadores como idade, raça e síndromes, em muitos casos, são considerados importantes para evidenciar maiores ou menores probabilidades de adoção.

Há muito que se pensar sobre o assunto. Ele não se esgota aqui. Se não há um mundo ideal onde crianças são cuidadas e inexistem casais inférteis, temos um mundo concreto onde é possível vislumbrar mudanças de pensamentos e rupturas de mitos. Perpetuar a espécie é mais do que procriá-la. È cuidá-la no esforço ético de reproduzir tradição e sentimento.

Pense nisso.


Veja a lista dos blogs participantes aqui e aqui.

8 comentários:

Georgia disse...

Vivi, gostei de te conhecer mais um pouquinho.

Gostei muito dessa sua frase aqui: "de se ter em casa uma criança “pura”, sem marcas genéticas e sem história. Por isso, nunca desprezamos o direito que ele tem de conviver com sua família natural."

Até porque aqui na Alemanha quando alguém muito jovem se torna mae e nao sabe se quer ficar com o bebê, ela pede ajuda a cidade. No caso uma família fica com o bebê. Ela poderá pegar o bebê nos finais de semana caso queira e tb amamentá-lo. Basta marcar um horario com a nova família. Temos um caso assim na escolinha da Vivi. Agora ela nos contou que a mae decidiu doar o menino e essa familia resolveu que quer adotá-lo, mas que a mae biológica poderá sempre visitá-lo quando assim o desejar.

Achei o seu pensamento muito parecido com o que acontece por aqui.
A mentalidade brasileira precisa mudar em relacao a esse aspecto...

Um grande abraco e obrigada

Nina disse...

"Perpetuar a espécie é mais do que procriá-la. È cuidá-la no esforço ético de reproduzir tradição e sentimento".

essa tua frase, vivi, foi mt bem colocada, é isso, a gente tem que pensar no melhor pro mundo a nossa volta, sao essas questoes que devem ser levantadas, quem somos nós como pais? adotivos ou nao...

perpetuar nao é só gerar filhos, mas gerá-los com amor e responsabilidade.

um bj

Vivi Bastos disse...

Pois é, Georgia
A sociedade está dividida entre tabu e evolução. Para nós sempre foi natural o convívio com a família biológica de meu irmão. Ele passa temporadas com a mãe e seus outros irmãos. E isso nunca o prejudicou, pelo contrário, é um rapaz saudável físico, mental e espiritualmente. Não sabia que na Alemanha era assim!!! Legal essa troca de informação pois o que me parece é que, na maior parte das vezes, criam-se medidas protetoras para salvaguardar interesses alheios ao bem estar da criança ou adolescente adotado.

Beijos

Vivi Bastos disse...

Bem lembrado, Nina.
Percebo essa ausência responsável em muitos pais também. O desejo de maternidade e paternidade deve acompanhar uma decisão responsável e, sempre reforço, ética. Afinal, nossas decisões deixam marcas em nós mesmos antes de atingir o nosso entorno.
Obrigada pela comentário, querida.

Beijos

Fábio Mayer disse...

Muita gente diz que blogagem coletiva não tem importância, porque não gera efeitos práticos.

Eu discordo, especialmente com o que representa ESTA blogagem sobre a adoção.

Isso porque, o grande efeito desta blogagem é fazer com que uma pessoa que esteja pensando em adotar, tenha subsídios para decidir pelo sim ou pelo não, em razão do fato de que os muitos post sobre ela, mostram as várias faces da questão.

dácio jaegger & Georgia disse...

Vivi, você diz com muita propriedade que “há muito que se pensar sobre o assunto. Ele não se esgota aqui. Se não há um mundo ideal onde crianças são cuidadas e inexistem casais inférteis, temos um mundo concreto onde é possível vislumbrar mudanças de pensamentos e rupturas de mitos (Não sei se vc leu uma lista de mitos coletada numa pesquisa universitária feita no Brasil, no meu post de lançamento em que Geórgia e eu lançamos a Blogagem - http://gk.jaegger.blog.uol.com.br/. Perpetuar a espécie é mais do que procriá-la. È cuidá-la no esforço ético de reproduzir tradição e sentimento.”
Este seu esforço de participar da blogagem e até ir respondendo quase de imediato seus e leitores, dignificou em muito a coletiva. Entenda que estou muito grato por sua presença conosco, tenha um bom final de semana. Abraço
P.S.
Vc gosta de devaneios? Aceite um convite para ler algo sobre em: “Foi mais ou menos assim” http://www.palimpnoia.blogspot.com/
Um forte abraço.

Vivi Bastos disse...

Isso mesmo, Fabio. Esta blogagem se torna distinguível por possibilitar um alcance maior de conhecimento das melhores prática e de pensamentos que extrapolam o paradigma da acomodação. Aprendi muito e ainda quero ler todas as postagens pois prometem muitos aprendizados por clique, né?

Abraços

Vivi Bastos disse...

Dácio, agradeço retorno. Visitei o seu site e colhi muitas informações elucidativas e bem contextualizadas. Existem realmente muitos mitos em relação a temática. E minha opinião para melhor lidar com a situação é respeitar a particularidades de cada experiência. Não existem fórmulas acabadas e mágicas. A sintonia do amor lhe servirá por pés, mãos e coração. Além do que a natureza autêntica da adoção se pauta pela espontaneidade e não há porque se pisar em ovos ao vivenciá-la.

Aceito o convite para a ampliação de leitura, Dácio, com prazer! E agradeço o convite.

Abraços

 

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